Gastamos milhões de impostos a travar o avanço do mar, privados lucram milhões, por o deixar avançar (Portugal)



O efeito dos obstáculos à circulação de areias ao longo da costa é bem conhecido. Alguém lucra com a areia que faz falta nas praias. Onde é que ela anda? Fica presa nas barragens inúteis para o país mas úteis para a os lucros dos privados.
Mas as causas humanas começam no interior, com barragens e a exploração de inertes nos rios. Dados dos anos 90 do século XX indicam reduções no transporte de sólidos para o litoral após a construção de barrages que chegam aos 80% no Douro, 82% no Tejo e 84% no Minho.Dragagens para manter a segurança e a operacionalidade na barras e portos, com a venda das areias ou a descarga no alto mar também contribuíram para diminuir as afluências sedimentares ao litoral. Prolongadas explorações de areias de praia adelgaçaram-nas e diminuíram ainda mais o transporte de sedimentos pela deriva marítima.

Por outro lado, a construção de edifícios e infra-estruturas sobre praias, em plena duna ou cordão dunar agravou o problema e tornou muitas vezes irreversível o recuo da linha de costa, ao destruir essas defesas naturais, que deixaram de reter as areias empurradas pelo vento e pelas marés.

Decisores políticos e técnicos discutem o que fazer: continuar a construir e a manter regularmente obras de engenharia pesada de elevados custos, ou proceder à realimentação artificial de praias e dunas. A primeira parece ser indispensável para proteger grandes aglomerados consolidados; a segunda está a dar resultados em troços não urbanizados, mas também como complemento à engenharia. JN

Antes das barragens entravam 1,8 milhões de metros cúbicos de areia no mar, agora entram apenas 250 mil metros cúbicos, agora imaginem quando se construírem as 12 barragens!!! que estes gananciosos querem construir para dar dinheiro aos amigos.

Batalha sem fim à vista, o estado paga milhões a empresas privadas, para colocarem areia nas praias, mas permite que as empresas "roubem" a areia nos rios, que naturalmente a transportariam para as praias, se ninguém a tirasse?
Omitiu-se que a ação natural do mar, tem vindo a ser fortemente amplificada, nas últimas décadas, pelos impactos resultantes das atividades antrópicas, de que são exemplos a urbanização desregrada, o pisoteio do coberto vegetal dunar, a artificialização das bacias hidrográficas (sobretudo devido à construção de barragens), as dragagens e explorações de inertes, a construção de molhes de portos e as intervenções de engenharia costeira.

Hoje, já não se consegue esconder aquilo que está à frente dos olhos de toda a gente: os fenómenos naturais e as intervenções humanas têm vindo a acelerar a erosão costeira, que acontece sempre que o mar avança sobre terra (galgamentos, inundações, instabilidade das arribas e movimentos de vertentes).
O tema por si só não seria notícia, não fora o facto de o avanço das águas marinhas encontrar pela frente aglomerados populacionais, ameaçando a vida das pessoas e a segurança dos seus bens. E não se pense que falamos de situações esporádicas, pois são inúmeros os casos (e as casas) de risco ao longo da faixa costeira. Os últimos estudos nacionais apontam para mais de um terço do litoral ameaçado, o que equivale uns 250 quilómetros de costa com tendência erosiva ou erosão confirmada. O pior de tudo é que esta parece ser uma batalha sem fim à vista. Segundo Veloso Gomes, professor da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, “os problemas da erosão são muito complexos; podemos adiá-los ou mitigá-los, mas não resolvê-los”.

Talvez seja por isso que nos habituámos a ler amiúde notícias como esta: “Esporões e paredões [da Costa da Caparica] necessitam de intervenções de reparação e reforço regulares para proteger a zona de costa intensamente urbanizada e exposta ao ataque permanente do mar”. E já nem ligamos aosvalores astronómicos que são deitados (literalmente) ao mar: “Alimentação artificial do areal custará 21,6 milhões de euros”. Pode parecer pouco; no entanto, somando o valor do investimento em
infraestruturas de defesa no litoral nas últimas décadas, chega-se a um número mais preocupante: mais de 120 milhões de euros.

Radiografia costeira

A zona da Caparica, que foi até há poucos anos “a grande praia da capital”, o destino balnear preferido de grande parte dos lisboetas, tem sido notícia pelas piores razões.
O troço entre São João da Caparica e a Costa da Caparica recuou mais de 200 metros entre 1959 e 2007. As causas são sempre as mesmas e bem conhecidas: desordenamento do território (incluindo, neste caso, a construção de habitações clandestinas). Nos finais da década de 1950, toda aquela região era uma colina litoral livre de construções. Contudo, no meio século que se seguiu, sofreu os efeitos da pressão urbanística e turística (chegam a ser centenas de milhares de pessoas que ali acorrem durante os fins de semana de verão), com consequente destruição das dunas.

Com a proteção natural fragilizada, a investida do mar tornou-se difícil de conter. Só não piorou porque desde 2007 se fez a alimentação regular e artificial de areia, além de obras de reparação e manutenção de esporões e de estruturas aderentes (vulgarmente conhecidas por “paredões”). São tantas as obras que, hoje, vista do céu em voo de gaivota, a orla costeira faz lembrar os dentes de um pente.

Todavia, a “Costa” é apenas a ponta do icebergue, porquanto existem muitos outros casos de risco para as populações de norte a sul, e alguns deles bem mais alarmantes. Os mais graves já exigiram, nos últimos anos, intervenções de emergência. No distrito de Viana do Castelo, merecem destaque Moledo e Castelo de Neiva. O primeiro é preocupação antiga, pois o pequeno aglomerado de casas aninhadas à sombra do pinhal do Camarido, estância de veraneio muito procurada pela aristocracia nortenha, recuou mais de trinta metros desde o início deste século. Já a pequena aldeia de pescadores, conhecida pelos seus barcos tatuados com as imagens dos filhos dos marinheiros, foi a última “dor de cabeça”: no outono de 2011, o mar galgou o cordão dunar e o paredão, amea­çando as casas. Resultado: 180 mil euros em obras de proteção.

José Antunes do Carmo, professor da Universidade de Coimbra, não podia estar mais de acordo, e até quantificou a dimensão do problema: “os troços Esmoriz–Torreira e Costa Nova–Praia de Mira perderam cerca de nove milhões de metros cúbicos de areia entre 1995 e 2003”. Na zona de Esmoriz–Cortegaça, as praias têm perdido areal desde finais do século XIX; porém, a situação tem vindo a agravar-se: se há 20 anos o recuo era de 4,5 metros por ano, mais recentemente chegou quase ao triplo. José do Carmo calculou igualmente os recuos da linha de costa e os números não são animadores: “entre 4,5 e 12,5 metros por ano na zona de Esmoriz a Cortegaça, oito a dez metros no Furadouro e quatro a cinco metros anuais no eixo Barra–Costa Nova–Vagueira–Areão”, já a sul de Aveiro.

Empurrar os problemas e deitar impostos ao mar Durante muitos anos, pensou-se que a solução para o dilema da erosão ao longo da costa portuguesa residia na construção de paredões e esporões, pelo que se encheram as frentes marítimas dos aglomerados populacionais em risco com toneladas e toneladas de pedras “protetoras”.

Além do avultadíssimo investimento inicial nessas caríssimas estruturas de engenharia costeira, cedo se percebeu que precisariam de manutenção regular (leia-se: mais uns milhares de euros por ano), pois, por maiores que sejam os penedos usados, eles não passam de leves peças de Lego que o mar enfurecido se entretém a demolir quando está mal disposto.

Não obstante, há algo ainda mais sinistro com aqueles estruturas, e sobretudo com os esporões. Se é verdade que surtem algum efeito no local onde são edificados, não é menos verdadeiro que não resolvem totalmente o problema: apenas o transferem para os vizinhos mais a sul. Isto acontece porque estas estruturas transversais à linha de costa alteram a dinâmica das correntes: retêm os sedimentos do lado norte, ampliando assim os areais que costumam manter o mar à distância, mas acentuam a erosão provocada pelas ondas do lado sul. Solução? Ir construindo mais esporões enquanto houver pessoas e bens para proteger. O mais recente serve geralmente para mitigar os efeitos que o anterior não resolveu, somente empurrou para a vizinhança.

Agora, já se percebe melhor porque é que a Costa da Caparica parece um pente…
O que acontece quando acabam as povoações em risco e já não se justifica gastar mais dinheiro na construção de esporões? O mar passa a ter rédea livre para avançar a seu bel-prazer. É exatamente isso que nos mostra a praia de São Pedro da Maceda, localizada a sul do último esporão de Cortegaça. Certamente, não existirá em Portugal melhor local para assistir ao vivo às verdadeiras consequências da erosão costeira.

Para quem não se quiser dar ao trabalho de realizar a viagem, basta uma breve espreitadela no Google Earth, usando a opção “imagens históricas”, para se perceber como foi desenfreado o avanço do mar. Em apenas sete anos, desde agosto de 2003 a julho de 2010, o recuo da costa atingiu mais de 80 metros, e nem o pinhal adulto, usado tradicionalmente para fixar areias, resistiu às investidas da água. É assustador ver pinheiros com dezenas de metros de altura a serem despedaçados pela violência das ondas como se fossem frágeis palitos. Aquele território faz lembrar um estranho campo de batalha: de um lado, o pinhal indefeso; do outro, o mar inclemente que tudo devora, uma espécie de Golias insaciável.

David contra Golias

Dito tudo isto, a pergunta é inevitável: como deter então o avanço do gigantesco Golias que invade as casas das pessoas sem ser convidado?
Bem, enquanto houver vidas em perigo, não se poderá deixar de acudir às situações de emergência, através da alimentação artificial de areia e da construção e reconstrução de estruturas de defesa costeira, que, na realidade, têm servido principalmente para defender o património edificado.
Se é verdade que não há muito a fazer quanto à construção de molhes de portos, tidos como essenciais para a segurança náutica, nem quanto à artificialização das bacias hidrográficas (sobretudo devido à edificação de barragens), já o mesmo não se poderá dizer das dragagens e explorações de inertes. Há quem defenda a reposição dos sedimentos que têm sido retirados às praias pelas barragens, que impedem a sua chegada ao litoral, e pelas estruturas de engenharia costeira (sobretudo esporões), que têm impossibilitado a sua normal distribuição hidromorfológica e a dinâmica sedimentar.

A erosão costeira nunca irá parar, e, segundo alguns estudos, até poderá agravar-se nos próximos tempos. Apesar de parecer um problema só de alguns (uma vez que afeta apenas determinados locais e pessoas), é na verdade um flagelo nacional.

Já fez as contas ao dinheiro dos seus impostos que tem sido atirado, literalmente, ao mar? Deixamos apenas um número para reflexão: o PAPVL 2012–2015 prevê um custo total de 416.893.541,49 euros.
Fonte: desenvolturasedesacatos.blogspot.com.br

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